Comentário interno do CD Alessandro Penezzi – 2006
Texto de José Carlos Cipriano, jornalista e violonista

Um dia testemunhei o olhar enfeitiçado de uma jornalista italiana, num festival em Marrocos, que, ao perceber em Alessandro Penezzi a sensibilidade e entrega total de sua alma ao instrumento quando o tocava num sarau informal pós-espetáculo madrugada adentro no hotel, disse-lhe que a magia de sua música consistia, de maneira escancarada – porém bela – na intensa interação corporal sua com o violão, como se o segundo fosse uma mulher. Parafraseando Vinícius de Moraes, ela não estava exagerando, pois é assim que Alessandro o trata: este pode relutar em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama.
O mesmo feitiço e amor visceral entre músico e instrumento são transpostos neste trabalho. Através do repertório do disco, seu violão bruxo surpreende com um sortilégio de fraseados comoventes, quando solo, e engalanados contracantos com os demais instrumentos, quando acompanhado de regional. Alessandro impressiona pelas suas intenções originais inesperadas, a clareza de um timbre limpo, a agilidade e sutileza de suas dinâmicas que exploram múltiplas variedades de sons e idéias musicais e delicadas appoggiaturas sem exageros ou afetações. Assim, pois, é generosamente reconhecido por jornalistas como Luís Nassif – que o intitula integrante do primeiro time de instrumentistas da atual música brasileira – e admirado por músicos como Laércio de Freitas, Guinga e Odair Assad.
Tanto talento não foi mera dádiva ou sorte do destino: desde o início de sua carreira, humildade e espírito de eterno aprendiz nortearam o crescimento musical de Alessandro, aluno contumaz que, sem preconceitos, corre atrás, incessantemente, de todas as fontes e referências no violão e na música do Brasil e de outras terras, com o intuito de fazer o seu próprio estilo.
O resultado só podia ser um: versatilidade. A mesma versatilidade que apresenta no chamamé Dayanna ao lado de seu irmão mais novo de cordas Yamandú Costa, no acompanhamento das vozes femininas de Amélia Rabello, Nábia Villela Beth Carvalho, no flamenco em passo convulso que rege uma impressionante releitura da Madrugada de Zé Keti e na presença da pegada da mão direita percussiva de seu pai musical Baden Powell nos pontos de Ogum e Yemanjá – a faixa Agradecendo – e na peça para violão solo de sua autoria Be-a-Baden.
A música brasileira necessita de paixão e, portanto, necessita do violão da música de Alessandro Penezzi.

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