Texto de encarte CD Sentindo 2008

É muito comum que instrumentistas virtuoses sejam conhecidos por suas performances, onde, via de regra, submetem seus instrumentos à sua vontade. Isto cria uma relação parecida com a de um domador, com seu chicote, e a fera enjaulada. A platéia ovaciona o feito desses super-homens da técnica, porém, a música que deveria ser princípio, meio e fim, quase sempre sai perdendo neste duelo de resultado previsível.

Com Alessandro Penezzi isto jamais acontece. Não obstante sua técnica, memória fabulosa, e ampla cultura musical, o que mais me impressiona em sua personalidade musical é a relação que estabelece com os vários instrumentos que toca. Embora aqui ele se apresente exclusivamente como violonista, posso garantir que toca com incrível habilidade o bandolim, o violão-tenor e a flauta. Com qualquer um destes instrumentos, Penezzi tem uma íntima afinidade. Não existe domínio de um pelo outro, e sim uma troca que por vezes é serena, por vezes arrebatada, contudo sempre apaixonada. Isso faz muita diferença. Penezzi ama tocar seus instrumentos e, com absoluta certeza, seus instrumentos amam ser tocados por ele. A música aparece, então, como resultado natural desta linda e rara relação.

Neste CD podemos constatar que uma das consequências mais felizes desta amorosidade musical é seu desenvolvimento como compositor. Em gêneros e andamentos diversos, as melodias e caminhos harmônicos são sempre bem construídos, fluentes e surpreendentes. A alma do choro sempre presente com o que ela tem de melhor: a liberdade, a riqueza melódica, rítmica e harmônica e o tapete estendido para as novidades fundamentadas.

Confesso que fiquei honrado e comovido em ser convidado para escrever sobre este trabalho, e duplamente feliz por saber que o ser humano e amigo Alessandro Penezzi é tão grande quanto o violonista.

Mauricio Carrilho, músico, arranjador, compositor e pesquisador

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